Tão etérea era, que em algum momento seu tempo a perdeu. Ali deixou de estar. E o vermelho se encobriu de tons marrons e negros e já não era vida ou veludo – sem sangue, sem flores.

Partiu. Partiu-se. Mas ela não era tão hábil, tão sólida… Talvez se se observa de outro ângulo, com a cabeça invertida ao mundo, se veria um brilho, e ao alcançá-lo – fragmento do partir – tomando-o se veria o reflexo que ela deixou: o portador em seu próprio lugar. Tão próprio que ela, invisível, havia que pisar rosas com espinhos, dançar em transe, partir espelhos e sangrar loucura, para ser vermelha.

Seguiria me perguntando se seu signo é ser mulher ou é ser ela. E se meu próprio tempo é sua existência, dos cigarros queimando à extinção sustentados em meus dedos abandonados num gesto. Desde já não recordar o que buscava ou se apenas abandonava e criava distância dos homens. Ser mais lobo que homem. Ser sem importar o que se é. Não morrer como um cão pelo processo, à margem de tanto lixo. Lobo. E não um cão.

Mas ela, descolorida ela. Dramaticamente, ela. Que sabia mais que chover. É tal febre, que vem, atordoa horas ou dias e em algum momento desapercebidamente se vai. Geralmente sua constatação vem ao despertar. Haveria sido isso? Haveria um sonho? A pretty intense one. Nada mais que sonho, por isso tanto cinza, por isso nenhum perfume de suas flores.

Mas ela, diante de quem tudo se tornava lento, e se suspendia por um instante no tempo que parecia eternizar-se, deixou de estar. Nem na nudez sensível de uma menina, moça que passa triste e branca, mignon e castanha, emudecida. Se ela se detivesse em frente a uma folha branca, haveria de despedir-se? Ou não sairia do mergulho em um mundo que a chave era o tão apenas dela cruzar as pernas e perder-se, perder-se tal como estava. De certo pensava muito a não caber em si a liberdade que precisava dançar e arrancar cortinas e abrir torneiras e quebrar espelhos, e arranhar com unhas de sangrar e fazer nos vermos vermelhos. Com o que ela então se pintaria sem extasiar-se, pois era muito o esforço de ser menos invisível, sim, pois ela sabia mais que chover. Que seria isso? Um segredo, uma verdade, uma sentença justa? Sobre quem?

E-tí-li-co. eeeeeeeeee-té-reeeeeeeee-aaaaaaaaaaa. Como uma queda, e se me escapa das minhas mãos. Da minha cabeça. Da minha sanidade. Dos sinais de trânsito. Das portas de segurança. Dos vendedores. Das festas de família. The hour grows late. Nunca está ao meu lado.

E meus olhos estão fundos. E meu pulmão enfermo. E meu copo vazio. Desde que ela partiu e me deixou apenas este fragmento que é meu próprio reflexo. Abandonado desde tempos imemoráveis talvez, ou imemorável é já o tempo que estou aqui. E a correspondência fechada largada no chão rente à porta da entrada por onde a lançam com pressa e não temor de um lobo velho, que tão logo não se nota tomarão por cão.

Não queria lhe lastimar. Nunca lutamos. E penso que nos entenderíamos cada vez que sua maquiagem se borrasse e cada vez que seu cabelo impecável se juntasse no alto da cabeça de medusa e camafeu. A fotografaria muitas mil vezes, com meu olhar e meu vouyerismo, e não dormiria para flagrar e vigiar seu silencio depois de cada dança e de cada dor. Suas experiências de vida, parando o tempo até seu próximo suspiro. Ela calada, e eu emocionado.

Aquela de suas criadoras que foi a patética e nua escreveu que em um alaúde suspenso sinto um aperto que por vezes era o peso de um braço num abraço de quem sabe dormir junto. O que se sente os que sabem entenderem-se juntos? Mas é que um não sabe entender-se com o outro. We’re too much special ones. And silent. And selfish. Não querendo ser como o outro mais que a evidente caricatura que se é. Não é um prazer ser espelho quando te furtes a olhá-los no momento em que sou como um grito teu. Na opacidade é que se é mais ainda uma face do outro. E não nos vemos. Quebrar tudo, e então dormir com quem sabe.

A outra criadora, a ébria e corporativa, falou da morte e suas trapaças e se cansou logo depois do segundo 0,0000000000043 do Big Bang. E deve ter declarado falência e estancado a dor de ser cansada. As duas são, as três, e eu também. Todos somos estes seres cansados. E todos devemos dormir.

Para sempre, como a srta. Del Toboso colocando a perder a discrição que Clarice falava sobre não viver.

Alguma vez, como ela, com suas rosas tatuadas nas costas largas.

Com quem sabe, como a srta. Caufield que pergunta a Saint Sebastian quando as pessoas conhecerão a poesia de seus célebres e dos seus marginais.

Agora, como eu, por fim caído ao chão.

(conto solicitado para projeto de textos).



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